"Fazia muito tempo que eu não tinha vontade de sorrir para nada nem para ninguém. Então era extraordinário que ele conseguisse perturbar assim os cantos de meus lábios." (CFA)
— Desculpa amor, acordei você — disse o Luan enquanto eu abria os olhos com dificuldade na claridade da luz da luminária.
— Não foi nada não… Seus pais já chegaram?
— Ainda não…
— Que horas são?
— Meia noite ainda.
— Você já terminou de arrumar o twitter?
— Faz tempinho… Eu tava assistindo uns vídeos meus ali no computador.
— Ah tá… Acho que vou lá pra baixo esperar seus pais chegarem pra eu ir embora.
Eu ia me levantando quando ele segurou meu braço.
— Fica aqui comigo… Eu já liguei pros seus pais e disse que você pegou no sono e eles disseram que você pode dormir aqui, se quiser.
— Ah não amor, acho que vou pra casa…
— Dorme aqui… Comigo? — ele disse enquanto fazia biquinho.
— Com você fazendo essa carinha, eu não consigo dizer que não…
Ele não se desfez da sua feição.
— Tá bom, eu fico — respondi revirando os olhos e sorrindo.
— Aêêê — ele vibrou — Vem cá, deita aqui comigo.
Eu me deitei sobre o peito dele novamente.
— Dorme com Deus, meu anjo — ele disse enquanto me abraçava.
— Você também, eu te amo.
Ele me deu um beijo na testa, depois abaixou a cabeça pra que meus lábios pudessem encostar nos dele e disse:
— Também te amo.
Me aconcheguei sobre o peito dele e adormeci. Acordei no outro dia com o sol tocando meus pés. Senti a mão do Luan afagando meu cabelo, olhei no relógio em cima da mesa do computador e ainda eram oito e meia. Me esforcei pra olhar pra cima e enxerguei o Luan olhando pra mim e sorrindo.
— Bom dia meu amor.
— Bom dia… Que dia é hoje? — eu tinha costume de nunca saber que dia era.
— Domingo, oito de março.
— Hum… — me espreguicei um pouco fazendo ele tirar uma das mãos que estava sobre meu braço.
— Tá com fome? — ele perguntou.
— Muita… E você?
— Eu também, vamos lá pra baixo, eu preparo nosso café — ele disse enquanto já ia se levantando, coloquei a mão sobre o peito dele, fazendo ele parar.
— Luan…
— Fala.
— Você sabe que horas seus pais chegaram?
— Eram três da manhã. Minha mãe veio aqui ver se agente já tava dormindo.
— Que vergonha…
— Vergonha? Por quê?
— Sei lá, de noite, eu e você sozinhos, deitados juntos, dormindo numa cama…
— Dormindo… — ele disse rindo, me fazendo rir também — Ela sabe que agente nunca…
— Sim — interrompi as palavras dele.
— As mães sempre sabem dessas coisas. Ela só me disse que quando acontecer, ela quer que eu conte pra ela.
— Minha mãe também disse isso.
Ele sorriu, como se dissesse pra eu não me preocupar com nada.
— Então, vamos preparar alguma coisa pra comer?
— Vamos.
Enquanto ele ia pra cozinha eu fui ao banheiro. Lavei o rosto e me olhei no espelho. Apesar de ainda ser de manhã, eu estava com uma boa aparência. Eu sempre deixava uma escova de dentes na casa do Luan, caso eu precisasse. Abri o armário torcendo pra que ela estivesse lá dentro. Por sorte, ela estava. Desci as escadas enquanto sentia um cheiro de café que ocupava toda a casa. O Luan estava de frente pro fogão.
— Hummmm, que cheiro bom…
Ele se virou pra mim enquanto deixava a frigideira sobre a mesa. Sorriu e disse enquanto apontava pras coisas:
— Tem café, leite, pão, ovos mexidos, queijo, presunto…
— Assim você quer que eu engorde né?
— Se você fosse gordinha eu nem me importava.
Nós rimos. Me sentei em uma das cadeiras e ele sentou de frente pra mim.
— Minha mãe me disse ontem que meu pai queria conversar comigo — ele disse enquanto eu passava manteiga em um pedaço de pão.
— Você imagina sobre o que seja?
— Não faço a mínima…
— Será que não tem algo a ver com… O seu aniversário?
Ele estava servindo um pouco de café pra mim e parou por um instante.
— Eu não tinha pensado nisso — ele disse enquanto parava de servir minha xícara com café — Mas faz sentido.
— É só um palpite…
— Agora eu fiquei mais curioso ainda.
Eu ri e tomei um gole do café que ele havia servido pra mim.
— Hummmm, que delícia esse café amor, tá do jeito que eu gosto.
— Hum, bem forte?
— É…
— Então eu te conheço muito bem, haha. Eu já sabia que você gostava assim.
Sorri pra ele e ele sorriu de volta. Terminamos o café e logo depois o seu Amarildo e a dona Mari acordaram.
— Bom dia meu casal — disse a dona Mari.
— Bom dia — eu e o Luan dissemos em coro, ela deu um beijo na testa de cada um.
— Tudo bem com a senhora? — eu perguntei.
— Tudo ótimo e vocês?
— Também.
— Vocês já comeram? — o seu Amarildo perguntou.
— Acabamos de terminar — disse o Luan.
— Então não precisam guardar as coisas, nós vamos tomar café — assentimos com a cabeça — A Bruna já acordou?
— Ainda não, ontem ele tava muito cansada — eu respondi.
Eu e o Luan demos lugar pra eles tomarem o café da manhã e fomos pra sala. Sentei no sofá enquanto o Luan ligava a televisão. Depois ele se sentou do meu lado.
— Acho que vou ligar pro Anderson pra ver se ele não quer que eu ensaie hoje — assenti com a cabeça — Você vai comigo né?
— Pode ser…
— Tive uma ideia — olhei pra ele como se estivesse esperando que ele contasse que ideia era — Que tal você chamar seus pais pra irem no ensaio com agente? Provavelmente meus pais e a Bruna também vão…
— Tá bom, eu falo com eles…
Ficamos assistindo televisão por alguns minutos.
— Ah, esqueci de te contar né amor? Eu estive com a Gabi na sexta feira de tarde enquanto você tava no ensaio.
— Ah é?
— Sim, ela disse que ontem ia pra São Paulo.
— Por quê?
— Ela tá trabalhando como modelo…
— Ah, é verdade, que legal né?
— Demais, ela tá tão linda amor… Acho que ela nasceu pra ser modelo mesmo.
— Ah, tem gente que já nasce com o dom né?
— Você também já nasceu com o dom, só que pra cantar, né? — nós sorrimos juntos.
— Poisé, haha.
— Ah, e ela mandou um abraço pra você.
— Brigada.
Ele se levantou e pegou o celular.
— Vou ligar pro Anderson já — assenti com a cabeça. Ele discou o número — Alô… Anderson? Tudo bem? É o Luan… Tô bem também. Olha só cara, você topa recuperar o ensaio de ontem hoje? Ah então tá, beleza, até mais tarde, tchau — ele desligou.
— E aí?
— Hoje, às duas horas.
— Beleza então. Eu vou em casa tomar um banho e almoçar com meus pais. Aí você vai lá me chamar?
— Sim… Acho que vou lá perguntar pro meu pai o que ele queria conversar comigo.
— Tá bom, depois você me conta… Agora eu vou indo.
Ele me levou até o portão, eu dei um abraço e um beijo nele e fui pra casa.
Capítulo trinta e oito — Eu me orgulhava muito dele.
O quarto do Luan ficava mais ao final do corredor, fui até lá e ele estava no computador.
— O que você queria amor?
— Eu pensei em fazer um twitter…
— Uai, não era você que dizia que não gosta dessas coisas?
— Poisé amor, mas acho que vou fazer um porque, sei lá né…
— É uma boa ideia. Daqui alguns dias você vai tá famoso, aí vai precisar de um lugar pra conversar com as fãs né?
— Ah, claro, claro — ele riu.
— Mas no que você quer minha ajuda?
— Eu quero que você me ajude a escolher o usuário.
— Ah sim…
— Eu queria algo que tivesse a ver com as fãs sabe… De algum modo, sei lá…
— Hum, deixe-me ver — coloquei o dedo indicador sobre os lábios e olhei pro teto — Que tal… Luan Santana e você?
— Adorei!
Ele então digitou luansantanaevc e estava disponível.
— Perfeito! — ele disse — E a primeira pessoa que eu vou seguir é — ele olhou pra mim e sorriu — A minha namorada linda, haha.
— Bobinho.
Ele abriu a página do meu twitter e clicou em following.
— Pronto, mas… Como as pessoas vão saber que eu tenho twitter agora?
— Hum — pensei por um momento — Espera aí, tive uma ideia — saí do quarto, desci as escadas, peguei meu celular e retornei — Liga pra esse número.
— Quem é?
— É aquela menina que nós encontramos no estúdio. Ela me passou o número dela. Liga pra ela, diz que é você e que você fez um twitter.
— Mas elas tem twitter será?
— Tem sim, elas me seguem e já me pediram o seu e eu dizia que você não tinha.
— Ah amor, ótima ideia!
Eu sorri. Ele ligou pro número e colocou no viva-voz.
—Alô? — disse uma voz do outro lado da linha.
— Oi Fernanda.
— Oi, quem fala?
— Adivinha.
— Espera aí, eu conheço essa voz — eu e o Luan começamos a rir — Luan, é você? Meu Deus, não pode ser!
— Sim, sou eu sim, haha.
— É trote né, isso é crime sabia?
— Não, sou eu mesmo, o Luan, haha — ela começou a chorar do outro lado da linha — Calma, respira… Eu tenho uma missão pra você.
— Tudo bem, o que foi amor?
Era estranho ouvir outra mulher chamando o Luan de amor, mas eu não sentia ciúmes.
— É que eu acabei de fazer um twitter…
— Ah, jura?
— Sim.
— Me fala qual é? Eu quero seguir já, haha.
— É Luan Santana e vê cê — disse ele, soletrando.
— Ah tá, eu vou seguir e vou começar a divulgar pra todo mundo. Pras rádios, pros outros fã clubes, pras outras fãs, deixa essa parte comigo.
— Tudo bem então.
— Luan, eu quero te falar uma coisa…
— Então fala uai!
— Eu te amo muito…
De repente o Luan olhou pra mim com um ar sério. Era estranho tudo isso, essa coisa de fã, mas eu não senti raiva ou ciúmes. Sorri pra ele e ele entendeu o recado.
— Own lindona, brigada pelo carinho, viu?
— Não vejo a hora do seu primeiro show com a banda — ela disse.
— Imagina como eu to então…
— Eu consigo imaginar.
— Haha… Eu vou desligar tá? Ainda tenho que arrumar umas coisas aqui do twitter, e já tá ficando tarde…
— Tudo bem amor, pode me ligar outras vezes se quiser, viu?
— Opa, ligo sim, haha.
— Tá bom então.
— Beijo lindona, fica com Deus, brigada por tudo.
— De nada, fica com Deus também, te amo.
Ele desligou o celular e me entregou. Eu peguei e fiquei olhando pra ele em minhas mãos.
— Estranho né? — eu perguntei.
— O que amor?
— Essa coisa de fã…
— Poisé, nunca imaginei que isso aconteceria.
— Eu já imaginei, mas não sabia que seria tão rápido…
— Você se incomoda com isso?
— Nem um pouco.
— Se você se sentir mal, me diz tá?
— Fica tranqüilo amor, sabe né — pigarreei — Eu me garanto — eu disse rindo.
— Hum, metida — ele riu — E eu garanto que vou te amar pra sempre.
— E eu confio em você pra isso — olhei pra ele e sorri.
Ele estava sentado na cama, encostado na cabeceira e me puxou pra um abraço forte. Eu me deitei sobre o peito dele. Ficamos assim por um tempo, enquanto eu desenhava com o dedo sobre o contorno do desenho da camisa dele.
— Você não disse que ia terminar de arrumar o twitter?
— Ah é né… É que com você eu esqueço do mundo.
Eu sorri e dei um beijo nele.
— Vai lá terminar então, eu te espero pra gente ir lá pra baixo — eu disse enquanto bocejava.
— Acho que tem gente com sono aqui…
— Só um pouquinho.
Ele sorriu, me deu um beijo na testa, se levantou e sentou na cadeira em frente ao computador. Eu permaneci deitada. Peguei um dos travesseiros que ele usava e deitei a cabeça nele. O cheiro do perfume dele ocupava cada mínimo centímetro do travesseiro. Era um perfume doce e suave que eu adorava. O melhor perfume do mundo pra mim. Fiquei lá deitada olhando pra ele e pensando em um futuro próximo, talvez mais próximo do que eu pudesse imaginar. Pensei nos shows que estavam por vir e nas novas fãs que ele conquistaria. Esses eram sonhos que eu sempre tive em relação ao Luan, porque desde que me conhecia por gente, eu sabia que um dia ele iria se tornar o ídolo de milhares, ou até de milhões de pessoas. Eu me orgulhava muito dele e de cada nova conquista que ele tinha, e minha fé em Deus era maior do que qualquer coisa que se pudesse imaginar.
Capítulo trinta e sete — Você tá mais lindo que o normal.
Ficamos ali até a hora que os pais dele chegaram. O filme já estava quase acabando e tinha sobrado quase meia panela de brigadeiro que a gente não tinha dado conta de comer. A primeira a entrar em casa foi a Bruna, ela me cumprimentou e o Luan ofereceu o brigadeiro pra ela. Ela se esbaldou comendo. Depois a Dona Mari e o Seu Amarildo entraram, me cumprimentaram e foram pro quarto tomar banho e se arrumar, pois mais tarde iriam pra uma festa. A Dona Mari me pediu pra que eu ficasse na casa deles naquela noite, pois a Bruna teria que ficar em casa. Eu disse que ficaria, ela me agradeceu e eles saíram.
— Vocês dois vão ser minhas babás — disse a Bruna.
— Own, nosso bebezinho, haha. Vem cá com a gente.
Ela se sentou entre eu e o Luan e nós dois abraçamos ela. Já eram quase sete horas da noite quando eu ouvi meus pais chegando em casa. Fui até o portão da casa do Luan, minha mãe me viu e foi falar comigo.
— Oi filha.
— Oi mãe — ela me deu um beijo — Mãe, eu vou ficar aqui até o seu Amarildo e a dona Mari chegarem tá?
— Por quê?
— É que eles saíram e pediram pra mim e o Luan ficarmos aqui com a Bruna.
— Ah sim, sim. Tudo bem filha. Vocês já jantaram?
— Comemos umas besteiras de tarde, vou ver com o Luan se ele quer fazer alguma coisa.
— Façam alguma coisa pra comer, é uma ordem! — disse ela, depois riu.
— Tá bom tá bom, haha.
— Sabe que horas eles voltam?
— Não sei mãe, mas acho que vão voltar meio tarde.
— Então quando eles voltarem você vem pra casa. Eu vou deixar a chave embaixo do tapete, tá?
— Tá bom mãe, pode deixar.
Me despedi dela e voltei pra dentro.
— E ai? — disse o Luan.
— Ela mandou a gente fazer janta — os dois riram — Alguma sugestão?
— Macarronada! — disse a Bruna de imediato.
— Hummmm, boa ideia — disse o Luan.
— Ok, então vou fazer uma macarronada bem gostosa pra gente.
— Eu te ajudo — a Bruna se prontificou.
— Enquanto vocês fazem a comida, eu vou tomar um banho — disse o Luan, se levantando.
— Tá bom amor.
Dei um selinho nele e ele subiu as escadas.
— Bora lá fazer logo essa macarronada?
— Bora!
Eu e a Bruna fomos pra cozinha. Procurei o macarrão em todos os armários e não encontrei nada. Abri a última porta e achei. A água já estava fervendo, coloquei o macarrão dentro da panela enquanto a Bruna picava os temperos. Depois os coloquei junto com o macarrão e deixei cozinhando. Alguns minutos depois, ele estava pronto.
— Bru, vai lá ver se o Luan tá pronto.
— Tá.
Pouco tempo depois, os dois desceram as escadas. O Luan estava com o cabelo molhado e isso parecia deixá-lo mais lindo ainda. Fiquei olhando pra ele e ele percebeu.
— Que foi? Tem algo de errado aqui? — disse ele, passando a mão sobre o cabelo.
— De errado não tem nada — eu pausei por um momento — Na verdade, tem sim… Você tá mais lindo que o normal.
— Ai meu Deus! — ele disse caindo na gargalhada.
— Perfeito — eu disse enquanto pegava o cabelo dele entre os dedos e os puxava pra cima.
— Você que é perfeita!
Dizendo isso, ele me puxou e me deu um beijo.
— Éeeeeeeeca! — a Bruna exclamou.
Eu continuei abraçada a ele e sussurrei:
— Na frente dela não!
— O que tem?
— Ela não tá acostumada com isso.
— Nada ver amor, haha.
— Tudo a ver — aumentei o tom de voz enquanto me soltava dos braços dele — Bem, vamos ver se prestou esse trem aqui que eu, hã… Quer dizer, que nós fizemos — pisquei pra Bruna e ela sorriu.
— Tá com uma cara ótima — disse o Luan, enquanto se sentava.
Servi o prato do Luan e quando ia servir o da Bruna, ela me interrompeu:
— Calma aí, vamos primeiro ver se o Luan aprova.
— Ah, claro.
— Opa, deixa eu ver então — ele disse.
Ele enrolou um pouco de macarrão no garfo, colocou na boca, mastigou um pouco e disse:
— Hummmm, delícia!
Eu e a Bruna vibramos:
— Aêeeeeeeeee!
Nós três rimos. Servi o prato da Bruna e, logo depois, o meu. Jantamos e depois o Luan e a Bruna colocaram os pratos deles na pia.
— Deixem aí que eu vou lavar a louça — eu disse.
— Não precisa não amor, vamos lá pra sala assistir outro filme.
— Amor, se eu não lavar essa louça, vou me sentir a nora mais mal agradecida do mundo.
— Sua bobinha — ele disse rindo.
— Vão lá pra sala que eu arrumo tudo aqui.
Eles assentiram com a cabeça e foram pra sala. Eu comecei a lavar a louça, enquanto olhava pela janela da cozinha. O céu estava incrustado de estrelas, uma mais brilhante que a outra. Me distraí por um momento, e enquanto eu lavava um copo de vidro, fiz muita força e ele acabou se quebrando. Um dos caquinhos cortou meu dedo.
— Aaaaai! — eu disse quase num tom de sussurro.
O sangue começou a pingar. Peguei o pano da pia e coloquei minha mão sobre ele pra que não pingasse no chão. Procurei pelos armários um kit de primeiros socorros. Não demorou muito pra que eu encontrasse um. Lavei o dedo em água corrente, depois esperei um tempo pra que o sangue parasse de sair um pouco. Pelo que me pareceu, o tratamento fez efeito, pois o sangue logo estancou. Coloquei um bandeide em cima do corte e passei um pedaço de gaze por cima. Finalizei com um esparadrapo. Ao terminar, ouvi a voz do Luan me chamando.
— Amor?
— Fala.
— Tá tudo bem aí?
— Tudo ótimo.
Ele certamente ouviu o barulho que eu fiz ao procurar o kit de primeiros socorros.
— Amor, chama a Bruna pra mim? — eu pedi pra ele.
Logo depois, ela apareceu, viu a caixa do kit em cima da mesa e arregalou os olhos.
— O que aconteceu?
— Shiii, fala baixo. Eu cortei meu dedo com um copo que eu quebrei, mas tá tudo bem. O sangue já estancou e eu já fiz o curativo. Faz um favor pra mim?
— Sim, pode falar.
— Termina de lavar a louça antes que o Luan venha aqui? Eu não vou mais conseguir.
— Tudo bem.
— Ah, e não fala nada pra ele agora. Eu sei que ele vai ver o curativo e vai perguntar o que aconteceu, mas deixa ele ver.
— Tá bom.
— Eu não quero preocupar ele, até porque nem sangrou tanto e foi rapidinho pra estancar.
— Que bom, seu tratamento teve efeito, pelo menos isso.
— É.
Eu continuei sentada enquanto ela foi lavar a louça. De repente o Luan apareceu na porta da cozinha, eu rapidamente escondi a mão embaixo da mesa.
— Por que você tá lavando a louça Bru? E por que esse kit de primeiros socorros tá aqui? O que aconteceu?
— Promete que não vai dar ataque e que vai confiar em mim se eu disser que tá tudo bem?
— Má meu Deus do céu, o que vocês fizeram?
— Promete?
— Tá, eu prometo.
— Eu tava lavando a louça, aí me distraí com um copo e ele quebrou, aí um dos caquinhos cortou meu dedo — ergui a mão que estava com o curativo — Mas tá tudo bem, o sangue estancou rapidinho, não aconteceu nada de mais.
— Amor, deixa eu ver isso, meu Deus, eu não devia ter deixado você lavar a louça e…
— Luan, olha o que você prometeu. Foi só um acidente, acidentes acontecem. Agora você quer que eu nunca mais lave louça na vida? Não né…
— Não é isso amor, mas eu me preocupo.
— Tá tudo bem, eu já disse, relaxa.
— Deixa eu ver seu dedo.
Ele pegou minha mão delicadamente. Eu tinha lavado ela e não havia nenhum rastro de sangue.
— Viu — eu disse — O sangue parou de sair rapidinho, não aconteceu nada de mais.
— Ai que bom amor, graças a Deus que você não teve outra — ele hesitou por alguns segundos — Hemorragia.
Percebi que ele falou aquilo com um pouco de medo.
— E ao meu tratamento também, pelo jeito surtiu efeito.
— É tão bom saber disso.
Eu sorri. Ele me deu um abraço e um beijo e eu apenas retribui. A Bruna terminou a louça.
— Hãhãn — ela pigarreou, nos fazendo interromper o beijo — Vamos assistir o filme?
— Bora lá — disse o Luan.
Voltamos pra sala e assistimos outro filme de ação. Não demorou muito pra que a Bruna pegasse no sono. Ela estava deitada no meu colo e eu estava recostada sobre o peito do Luan, enquanto ele afagava meu cabelo.
— Tadinha, ela tava cansada.
— Tava mesmo.
Continuamos vendo o filme, até que o Luan interrompeu.
— Amor, vamos lá no quarto?
— Pra?
— Eu quero fazer uma coisa e preciso da sua ajuda.
— Tá, mas antes deixa eu chamar a Bruna pra ela ir pra cama.
— Tá, eu vou indo lá.
Passei a mão sobre o rosto dela e disse:
— Bru, acorda, vem, eu te levo lá pra cima.
Ela estava muito sonolenta e não disse nada. Eu desliguei a televisão e a ajudei a subir as escadas. Coloquei ela na cama, liguei o ar-condicionado e fechei a porta.
Capitulo trinta e seis — Só tenho olhos pra você e pra mais ninguém.
Senti uma mão sobre o meu ombro.
— Amor?
Era a voz do Luan, ele não podia me ver assim. Antes que eu respondesse, ele já estava na minha frente levantando meu rosto.
— Amor? Pelo amor de Deus, o que aquela garota fez pra você?
Eu não consegui dizer nada. Pulei do banquinho e dei um abraço nele. Ele me segurou forte.
— Me diz… O que ela fez pra você?
— Luan, me promete uma coisa?
— O que você quiser.
— Me promete que nunca vai sair do meu lado, que sempre vai ficar comigo, não importa o que aconteça?
— Mas é claro, meu amor. Você sabe que sim.
— E me promete que nunca vai me trocar por nenhuma outra garota?
— Isso é impossível. Eu amo só você, só tenho olhos pra você e pra mais ninguém.
— Promete Luan! — eu disse impaciente, e senti mais lágrimas escorrendo pelo meu rosto e encharcando a camisa dele.
— Eu prometo meu anjo. Jamais vou te trocar por ninguém — ele me deu um beijo no topo da cabeça — Mas por que isso? Me diz.
Eu então me lembrei que ele tinha ensaio e disse:
— Não Luan, deixa eu ir pra casa. Vai pro seu ensaio, mais tarde a gente conversa.
— Nem pensar. Eu vou falar pro Anderson que não vou mais. Eu vou te levar pra casa e você vai me contar o que aconteceu.
— Luan, não faz isso.
— Não vou te deixar sozinha, nem a pau. Vem comigo, vamos pra casa.
Ele me abraçou pela cintura e eu pousei minha cabeça sobre o peito dele. Eu me sentia protegida assim, mas sabia que o Luan não poderia fazer nada pra impedir que aquela garota arruinasse minha vida. Entramos no carro e o Anderson estava na direção.
— Anderson, será que a gente pode deixar o ensaio pra amanhã? — disse o Luan — Olha o estado dela. Eu não posso deixar ela sozinha.
— Claro Luan, não se preocupa.
— Leva a gente em casa, por favor?
— Claro, mas o que ela tem?
Eu ainda chorava um pouco e o Luan continuava abraçado comigo.
— Uns problemas com uma menina aí… Eu acho.
O Anderson não disse nada, ligou o carro e nós chegamos em casa pouco tempo depois. Eu estava mais calma e o Luan ficava me perguntando por que eu estava chorando. Eu não conseguia responder. Descemos do carro e o Luan disse:
— Meu, valeu mesmo.
— Que isso Luan — disse o Anderson.
— Muito obrigada e pode deixar que eu vou repor esse ensaio.
— Tudo bem, não se preocupa.
Entramos na casa dele pela sala e ele foi até a cozinha e trouxe um copo de água com açúcar pra mim.
— Toma essa água, vai fazer você ficar calma — tomei um gole — Tá melhor?
— Não tanto quanto eu gostaria.
— Me diz o que aconteceu? O que a Ana Lúcia fez pra você?
— Ela queria o que sempre quis.
— Como assim?
— Ela me pediu pra que eu ajudasse ela a ficar com você.
— Comigo?
— Luan, você tá falando com se já não soubesse só porque eu to aqui com você? — eu indaguei um pouco irritada.
— Não amor, eu nunca soube que ela queria ficar comigo.
— Ela sempre quis, Luan. Ela sempre foi apaixonada por você. Calculo que desde a sétima série, mais ou menos.
— Mas eu te juro amor, nunca percebi isso, e ela também nunca me disse nada. Você sabe disso. Se ela tivesse me dito alguma coisa em todos esses anos, eu ia ter te contado, não acha?
— É…
— O que mais ela disse?
— Ela disse que queria minha ajuda e eu me irritei. Mostrei a aliança pra ela e disse que eu e você estamos namorando.
— E ela? — comecei a chorar de novo e ele me abraçou — Calma amor, tá tudo bem… Ela não vai poder fazer nada pra separar a gente.
— É isso que me dói Luan…
— Por quê?
— Porque ela é perigosa, você sabe disso. Ela é capaz de tudo pra ficar com você. Lembra aquela vez, no primeiro ano, que você ficou com a Carla?
— Lembro, por quê?
— Lembra que depois de uns dias, ela apareceu na escola toda machucada?
— Sim…
— Foi a Ana Lúcia que mandou baterem nela.
Ele arregalou os olhos.
— Não pode ser…
— Mas é, Luan! Ela é capaz de tudo pra ficar com você, tudo — eu disse quase gritando.
— Se acalma amor… Ela te ameaçou?
— Ela disse que vai fazer da minha vida um inferno e que vai separar a gente.
— Ela não pode fazer isso.
— Mas ela pode tentar.
— Eu não vou deixar ela te machucar.
— Ela já me machucou com as palavras dela. Eu não estou com medo de ela mandar alguém me bater, ou algo do tipo, eu não me importo com isso. Eu tenho medo de ela conseguir me separar de você, Luan. Eu não vou sobreviver se isso acontecer…
— Quanto a isso você não precisa se preocupar. Lembra quando eu te falei que absolutamente nada pode nos separar?
— Lembro…
— Então.
— Mas eu tenho medo do que ela possa fazer.
— Ela pode fazer o que ela quiser que nada vai nos atingir. Eu não vou deixar ela fazer nada com você. Quer saber? Eu vou tirar satisfação com essa garota, quem ela acha que é?
— Luan, nem pense nisso.
— Eu vou sim, você ainda tem o número dela aí?
— Tenho.
— Então me dá aqui que eu vou ligar pra ela e falar tudo.
— Tudo o que?
— Que se ela fizer alguma coisa pra você, ela vai se ver comigo.
— Luan, não precisa se meter nisso.
— Você é a pessoa mais especial do mundo pra mim. Eu te amo e já te prometi que vou te proteger de tudo, inclusive dessa garota. Eu não vou deixar ela encostar em um fio de cabelo seu. Ela que não seja louca de fazer isso. E ela que nem pense na possibilidade de um dia eu querer ficar com ela, porque eu só tenho olhos pra você e eu quero ficar com você até o meu último dia de vida, até o meu último suspiro.
Eu nunca tinha visto o Luan irritado daquele jeito. Preferi não dizer nada, pois me emocionei um pouco com as coisas que ele disse. Ele pegou meu celular e digitou o número dela no celular dele. Depois de alguns segundos, ele disse:
— Alô? É a Ana Lúcia né? Aqui quem fala é o Luan, você lembra de mim né? Cala a boca, não fala nada, quem vai falar sou eu, você só vai ouvir. Olha só, quem você pensa que é pra ameaçar a minha namorada? Tá louca garota? Se eu quiser eu posso ir na delegacia agora te denunciar. Você que experimente tocar em um único fio de cabelo da Jé. Você vai se ver comigo se isso acontecer, então nem tenta. E jamais pense na possibilidade de eu querer ficar com você um dia. Eu jamais vou trocar a Jé por você, tá me ouvindo? Jamais! Eu amo a Jéssica. E pra mim você não passa de uma garota qualquer, enquanto a Jé e a melhor garota do mundo, a mais linda, a mais fofa. Ela é a pessoa que mais me faz feliz e nada, escuta bem, absolutamente nada pode separar eu e ela. Você tá avisada. Se alguma coisa acontecer com a Jé, eu já sei quem foi. Fica longe dela, garota.
Dizendo isso ele desligou e disse:
— Pronto, ela tá avisada.
Eu percebi que ele estava muito bravo.
— Amor, se acalma um pouco. Você tá muito irritado.
— E não é pra ficar? Olha amor, qualquer coisa suspeita que você perceber, você me conta, tá bom?
— Tá bom.
— E não fica pensando muito nisso. Fica tranqüila, mas fica sempre alerta, e me promete que não vai ficar triste.
— Tá bom amor, eu prometo.
— Eu te amo, nada vai nos separar. E eu vou te proteger pra sempre.
— Eu também te amo e confio em você.
Ele me abraçou, beijou minha testa e disse:
— Vamos fingir que nada disso aconteceu?
— Vai ser difícil.
— Mas a gente pode tentar, não pode? — eu sorri e assenti com a cabeça — Viu o porquê de eu querer esquecer esse assunto?
— Não…
— É porque eu só quero te ver sorrindo, e não chorando.
— Own, haha.
Beijei ele e ele retribui. Me levantei do sofá e fui até o banheiro. Lavei o rosto e voltei pra sala. Não encontrei o Luan lá.
— Luan? Cadê você?
— To aqui na cozinha amor.
Entrei na cozinha e ele estava mexendo em uma panela no fogão.
— O que você tá fazendo? Tenho até medo de perguntar isso — eu disse rindo.
— Há-há, bobinha. Tô fazendo brigadeiro de colher, o que você acha?
— Acho que brigadeiro é a única coisa que você sabe fazer quando o assunto é comida — eu ainda ria.
— Também acho — ele disse rindo junto comigo.
— Mas o seu brigadeiro é o melhor que eu já comi…
— Claro que é!
— Metiiiido — ele riu.
— Amor, vai lá na sala e escolhe um filme pra gente assistir — ele disse enquanto mexia a panela.
— Que tipo de filme?
— Sei lá, se tá bom pra você, tá bom pra mim também.
— Que tal ação, pra relembrar os velhos tempos?
— Ah, claro!
— Tá bom, vou lá ver.
Quando nós dois éramos apenas amigos, gostávamos muito de assistir filmes de ação juntos. Por isso eu disse pra relembrarmos os velhos tempos. Enquanto escolhia, fiquei em dúvida entre dois filmes do Vin Diesel, ele era o ator que eu e o Luan mais gostávamos. Resolvi escolher a primeira opção. Coloquei ele no DVD e voltei pra cozinha.
— O filme tá pronto, agora só falta o meu cozinheiro.
— O seu cozinheiro quase queimou o brigadeiro.
— Meu Deus! — eu exclamei desacreditada.
— Mas tá gostoso, experimenta…
Ele pegou um pouco em uma colher, assoprou e colocou na minha boca.
— Hummmm, delícia.
— Bom mesmo?
— Demais da conta! — dei um beijo nele e ele retribuiu.
— Vamos lá pra sala. Pega dois copos e o refrigerante na geladeira que eu levo o brigadeiro e as colheres.
— Tá bom.
Fiz o que ele pediu e fui pra sala. Coloquei as coisas na mesinha de centro, servi os dois copos e dei play no filme. O Luan apoiou a panela sobre as pernas. Eu coloquei os pés em cima do sofá, recostei a cabeça no peito dele e ele me abraçou.
Chegando na praça ainda faltavam cinco minutos pras duas horas. A Ana Lúcia ainda não havia chegado. Fiquei esperando até que ela chegou, eram duas horas em ponto.
— Oi Jé! — disse ela me abraçando, um pouco empolgada demais — Tudo bem?
— Oi… Tudo bem sim, e você?
— Eu estou ótima! Você tá me esperando a muito tempo?
— Cinco minutos, mas foi eu que vim cedo demais.
— Ai, mil desculpas — disse ela me ignorando — Sabe como é né, vida de filha de fazendeiro não é fácil — ela fazia questão de dizer isso.
Realmente não deve ser fácil ficar o dia inteiro em frente à televisão, só se preocupando em ir pro shopping com as amigas pra gastar todo o dinheiro do seu pai, pensei comigo mesma, sarcasticamente.
— Pois é…
— Mas e aí, como estão as coisas? Eu soube que você tá em tratamento…
— É eu to — eu sabia que estava sendo fria demais, mas ela merecia.
— Mas por quê?
— Sofri um acidente e descobri que tenho uma doença que causa hemorragias fortes.
— Nossa, que horror.
— Mas eu to bem melhor — assegurei.
— Que bom né?
— É.
— E o Luan, como ele tá?
Tremi um pouco quando ela perguntou sobre ele.
— Ele está ótimo.
— Eu soube que ele tá começando a carreira, é verdade?
— Sim.
— Nossa, eu acho que ele consegue, pois tem muito potencial.
— E eu não tenho dúvidas — retruquei.
— E vocês ainda são amigos? Quer dizer, melhores amigos?
— Como nunca fomos antes — respondi de imediato.
— Hum…
— Olha só, será que você pode me dizer logo o que queria falar comigo? É que eu tenho compromisso daqui a pouco.
— Ah claro — disse ela, fazendo cara feia.
Fiz uma cara impaciente, ela certamente entendeu o recado. Eu estava sendo muito seca com ela, mas pelo menos eu não estava me fazendo de amiga dela.
— Bom, você sabe né… Que eu sempre fui apaixonada pelo Luan.
Droga, droga, droga! Eu não podia acreditar que ela ainda gostava dele.
— Sim — foi o que consegui dizer.
— E bem, vocês são tão amigos… Eu gostaria que você me ajudasse a ficar com ele.
Eu não conseguia nem pensar nessa possibilidade. Me irritei e me segurei pra não voar naquele cabelo loiro-farmácia dela. Disfarcei um pouco o nervosismo.
— Lamento, mas não vai ser possível.
— Por quê?
— Olha aqui, tá vendo essa aliança? — eu disse enquanto mostrava a aliança pra ela.
— Sim…
— Sabe quem me deu?
— Não…
— Foi o Luan! E sabe por quê?
— Porque vocês…
— É isso mesmo, agente tá na-mo-ran-do — falei pausadamente pra que ela ouvisse bem.
— O quê? — ela perguntou como se não acreditasse.
— É isso mesmo que você ouviu.
— Não posso acreditar.
— Pois acredite porque é verdade.
— Você não pode ter feito isso comigo. Eu sempre fui sua amiga e…
— O que garota? Você, minha amiga? Desde quando? — eu já estava exaltada.
Ela se irritou mais do que eu e se levantou. Por um momento pensei que ela fosse me dar um tapa, mas não. Me levantei também.
— Você sabia que eu gostava dele! Eu sempre deixei isso bem claro!
— Gostar é diferente de amar. Eu amo o Luan e ele me ama, pronto.
— Não, vocês não vão ficar juntos!
Foi aí que me lembrei que eu estava discutindo com uma garota muito perigosa, que era capaz de tudo pelo Luan e que poderia tentar me separar dele.
— Olha aqui, Ana Lúcia — eu disse enquanto segurei os dois braços delas, obrigando ela a olhar pra mim — Eu não quero confusão com você. Você acha que eu escolhi namorar com o Luan? Pra sua informação, eu nem nunca imaginei que isso pudesse acontecer um dia, mas aconteceu e eu me vi apaixonada por ele. Agora se contenta com a sua derrota.
— Derrota? Você tá pensando que vai ser assim fácil? Eu vou fazer da sua vida um inferno, garota!
— Ana Lúcia…
— Não adianta, agora você já conseguiu comprar uma briga comigo. Enquanto eu não tiver o Luan só pra mim, não vou sossegar. Vamos ver quem é que vai ficar com ele! — eu tremi um pouco, pois sabia que ela podia sim fazer da minha vida um inferno, tentei conversar, mas ela não me ouviu, ela pegou a bolsa e já ia saindo quando virou pra trás e fez uma última promessa — Você não vai se dar bem nessa. Me aguarde.
Dizendo isso, ela me virou as costas e saiu. Me sentei novamente e comecei a chorar. Eu sabia que ela era capaz de tudo mesmo pra ficar com o Luan e eu tinha medo de que ela conseguisse me separar dele. Eu não sei o que seria de mim se isso acontecesse, pois sem o Luan eu não viveria, eu não saberia que sentido a vida tem. Apoiei a cabeça sobre as mãos e fiquei olhando pra baixo, eu chorava de soluçar.
Capítulo trinta e quatro — Não pergunta nada, só faz o que eu to pedindo.
Acordei no outro dia com o sol tocando meu rosto. Eu ainda estava deitada sobre o peito do Luan. Olhei para o rosto dele e ele ainda estava dormindo. Fiquei um tempo o admirando até que ele acordou.
— Bom dia dorminhoco — eu disse.
— Bom dia.
— Dormiu bem?
— Pra eu dormir melhor eu tinha que ter duas de você aqui comigo.
— Own, haha.
— E você dormiu bem?
— Não tem lugar melhor pra dormir do que abraçadinha com você — eu respondi e ele sorriu — Que horas são?
— Oito horas — ele disse depois de olhar no celular.
— Tá cedo… Mas eu não to mais com sono.
— Nem eu…
— Vamos descer? Vou preparar um café da manhã bem gostoso pra gente.
— Tá bom.
Nós descemos e meus pais ainda estavam dormindo, provavelmente só acordariam lá pelas onze.
— Tava pensando em fazer uns ovos mexidos, o que você acha?
— Por mim tudo bem… Quer ajuda?
— Não precisa não.
Peguei dois ovos na geladeira e os quebrei dentro da frigideira. Me atrapalhei um pouco pra mexê-los. Ele veio atrás de mim e segurou minha mão que estava com a colher. Com a outra mão ele me abraçou pela cintura.
— Deixa que eu te ajudo.
Eu sorri. Quando os ovos estavam prontos, ele disse:
— Pega lá dois pratos. Não quero que você tire os ovos da frigideira, porque você pode se queimar.
— Ai, ai, que namorado cuidadoso…
Ele riu. Eu peguei os pratos e ele colocou uma porção dos ovos em cada um deles. Depois pegou duas torradinhas e colocou uma em cada prato. Eu servi dois copos com suco de laranja e nós nos sentamos pra comer.
— Hum, delícia - eu disse.
— Claro, você que fez…
— Nada ver… Quem fez foi você.
— Tá, tá, eu aceito os seus elogios — ele riu.
— Ai, seu metido, haha.
Ele me deu um selinho. Terminamos de comer e colocamos a louça suja dentro da pia. Eu deixei pra lavar mais tarde.
— Você tem ensaio ainda hoje amor?
— Tenho sim… Você vai comigo?
— Bem que eu queria, mas vou encontrar a Ana Lúcia.
— Ah, é verdade… Eu tinha me esquecido. Mas, eu tava pensando numa coisa aqui…
— No que?
— Você confia em mim?
— Sem sombra de dúvidas, mas por que isso agora?
— Então vai pro seu quarto e se arruma, enquanto eu vou em casa trocar de roupa.
— Mas… Pra que?
— Não pergunta nada, só faz o que eu to pedindo.
— Mas, Luan…
— É uma surpresa.
— Ai, ai, você e suas surpresas.
— Não se preocupa, só faz o que eu pedi.
Ele me deu um beijo e saiu. Eu subi pro meu quarto, tomei um banho rápido, arrumei a cama, troquei de roupa, passei o perfume preferido dele e peguei minha bolsa. Quando desci as escadas o encontrei na cozinha me esperando.
— Tá pronta?
— Espera aí.
Peguei papel e caneta e escrevi um bilhete pra minha mãe:
“Mãe,
Eu e o Luan saímos, mas não
vamos demorar pra voltar.
Beijos, te amo”.
— Agora podemos ir — eu disse.
— Ok, o táxi já tá esperando a gente.
— Táxi?
— É, a gente vai ao shopping.
— Vê lá o que você vai aprontar.
Ele não disse nada, apenas riu. Embarcamos no táxi e fomos o caminho todo de mãos dadas. Chegando lá, ele saiu primeiro do carro e fechou a porta depois que eu saí. Entramos no shopping.
— Amor, me espera um pouquinho aqui, eu já volto.
Ele foi falar com um dos seguranças. Enquanto ele estava lá, eu estava vendo a vitrine de uma loja. Ele voltou e disse:
— Vamos, é por aqui.
Ele me pegou pela mão e eu fui andando ao lado dele. Paramos em frente a uma joalheria.
— É aqui.
Meu corpo estremeceu. Eu olhei pra ele, um pouco assustada.
— Luan… A gente não precisa disso.
— Eu faço questão.
Antes mesmo de impedi-lo, ele me puxou pela mão e nós entramos. Uma mulher veio nos atender.
— Bom dia, o que vocês gostariam?
—Bom dia. Nós gostaríamos de ver algumas alianças, por favor — disse o Luan.
— De namoro, casamento…?
O Luan olhou pra mim e sorriu, eu sorri de volta. Era tentador pensar em casamento tendo o Luan como namorado.
— De namoro — ele disse entre um sorriso.
— Ok, vou mostrar algumas pra vocês.
Ela foi andando por trás do balcão de vidro até uma prateleira onde estava escrito: “Alianças de Prata”. Enquanto isso, eu admirava alguns colares de ouro e pedras preciosas. Eram um mais lindo que o outro. O Luan percebeu e me disse:
— Um dia ainda vou te dar um desses.
Eu comecei a rir e ele também. A vendedora pegou algumas bandejas revestidas com camurça onde haviam centenas de modelos de alianças e as colocou sobre o balcão.
— Aqui estão os modelos que a gente tem na loja.
Eu olhei pras alianças. Tinham grandes, médias, pequenas, grossas, finas, decoradas… Era realmente uma infinidade.
— São todas lindas — eu disse, por fim.
— São mesmo — disse o Luan.
Entraram mais dois clientes na loja.
— Vocês podem ficar aí experimentando as alianças enquanto eu atendo eles? — ela perguntou.
— Sim — nós dois respondemos em coro.
Ela saiu e nós começamos a provar as alianças. Provamos várias, eu separei as que eu tinha gostado mais e fui fazendo uma espécie de “eliminatória”. O Luan também estava provando, mas quis deixar a escolha por minha conta. Ao final, fiquei em dúvida entre duas e pedi a opinião dele.
— Qual você achou mais legal amor?
— As duas são lindas, mas eu gostei mais dessa — ele disse apontando pra que estava no meu dedo.
As alianças escolhidas não eram nem tão grossas, nem tão finas. Eram bem simples e lindas ao mesmo tempo. O Luan colocou a dele no dedo e segurou a minha mão que estava com a aliança. Esticamos os braços pra vermos melhor as duas juntas, uma ao lado da outra.
— Ficou legal né? — eu perguntei.
— Impecavelmente perfeitas. Agora o nosso kit namoro tá completo, haha.
— Kit namoro?
— É — ele disse um pouco tímido.
— Você inventa cada coisa — eu disse rindo.
Chamamos a vendedora da loja, ela colocou as alianças dentro de uma caixinha de veludo vermelho e nos acompanhou até o caixa.
— Cento e oitenta reais — disse a vendedora.
Arregalei os olhos. Fui pra perto do Luan e ele se abaixou pra que eu pudesse cochichar no ouvido dele.
— Amor, é muito caro. Vamos deixar pra comprar outro dia.
— Não amor, tudo bem.
Ele abriu a carteira e tirou duzentos reais em duas notas de cem. Entregou-as para a vendedora. Ela devolveu o troco e nos entregou uma sacolinha com a caixinha e as alianças dentro. Saímos da loja e eu disparei:
— Luan, você tá doido? Cento e oitenta reais é muito dinheiro!
— Amor, relaxa… Eu pedi dinheiro pro meu pai quando fui pra casa trocar de roupa e…
— Luan Rafael Domingos Santana, você pediu dinheiro pro seu pai? Isso é inadmissível!
— Calma amor. Eu disse pra ele que devolveria assim que recebesse meu primeiro cachê.
— Com que cara eu vou olhar pro seu pai usando o dinheiro dele no dedo?
— Você tá se preocupando à toa.
— Não, você sabe que eu não gosto disso, Luan.
— Eu vou devolver o dinheiro pra ele, não se preocupa. E se ele deu o dinheiro, é porque ele confia em mim e confia no nosso amor. Eu não forcei ele a me dar esse dinheiro. Eu pedi e ele me deu, de boa.
— Você me apronta cada uma, olha…
Ele me abraçou e me deu um beijo na testa.
— Você é certinha demais amor.
— Eu sou justa, é diferente. Seu pai não tem obrigação de gastar dinheiro com o nosso namoro.
— Ele sabe que eu quero coisa séria com você e que gastar dinheiro com o nosso namoro não é desperdício.
Dizendo essas palavras, ele me deixou sem nenhuma.
— Assim você me quebra né — eu disse, por fim.
Ele olhou pra mim e sorriu.
— Eu te amo, minha certinha.
— Só sua, haha.
Saímos do shopping e o Luan chamou um táxi. Chegamos em casa e depois de entrarmos, ele me perguntou:
— É hoje que você vai se encontrar com a Ana Lúcia né?
— Sim, mais tarde… Mas já é a segunda vez que você tá me perguntando.
— É que eu to preocupado.
— Com o quê?
— Sei lá, não vou com a cara daquela menina — eu senti um alívio dentro de mim quando ele disse isso.
— Amor, relaxa. Eu só vou lá conversar com ela, de boa.
— Se eu pudesse, eu ia com você…
— Mas você tem coisas mais importantes pra fazer. Não se preocupa comigo amor, não vai acontecer nada.
— Mas toma cuidado tá?
— Tá bom…
— Mas, mudando de assunto — ele me puxou pra perto dele pela cintura — O que você acha de a gente colocar já as alianças?
— Acho uma ótima ideia, haha.
Eu ainda estava com a sacolinha da joalheria na mão. Peguei a caixinha e abri. Quando ia pegar minha aliança e colocar no dedo, ele segurou minha mão.
— O que foi? — eu perguntei.
— Calma aí — ele pegou minha aliança — Eu quero fazer isso do jeito tradicional — eu sorri — Espera aí, deixa eu me concentrar — revirei os olhos, ainda sorrindo — Não me deixa nervoso…
— Tá, haha.
— Bem, eu queria te dar uma prova de que quero coisa séria com você, que o que eu sinto por você não é brincadeira, e pensei logo nas alianças. Claro que elas não servem pra fazer um amor durar pra sempre, mas o meu amor por você é eterno. Podem passar cinco, dez, cinqüenta, mil anos, mas eu sempre vou te amar. Essa aliança serve como uma recordação sua pra mim, porque todas as vezes que eu sentir sua falta, vou olhar pra ela e lembrar de você, do seu sorriso… Eu te prometo que nós dois vamos ficar juntos pra sempre.
Uma lágrima brotou nos meus olhos.
— Isso é… Lindo.
— Eu te amo.
Dizendo isso ele colocou a aliança no meu dedo e deu um beijo sobre ela, depois ele me beijou e eu retribuí.
— Agora é minha vez — peguei a aliança dele dentro da caixinha — Faz quinze anos que eu conheço você e eu nunca imaginei que fosse dizer isso um dia, mas você é o homem da minha vida. Eu quero ficar com você pra sempre, porque só você me completa, só você me faz feliz e faz eu me sentir a pessoa mais realizada do mundo. Eu tenho certeza que vamos ficar juntos pra sempre, e vamos vencer todas as barreiras juntos também. E eu sei que isso não vem muito ao caso, mas eu quero que você seja o melhor cantor do mundo. Eu rezo todos os dias pra isso e minha intuição diz que depois desse seu primeiro show, você vai alcançar o topo. E eu te juro que quando isso acontecer, eu vou estar do seu lado. Vou te amar e te fazer muito feliz, pra sempre.
— Eu confio em você pra isso.
— Eu te amo muito.
Depois de dizer isso, fiz a mesma coisa que ele fez comigo. Nós nos abraçamos e ficamos assim por um tempo. Depois do abraço, olhei pra ele e sorri. Ele sorriu de volta.
— Seus pais ainda não acordaram?
— Acho que não. Já são onze horas, vou chamar eles.
— E eu vou pra casa, ainda tenho que tomar um banho, me arrumar e almoçar pra ir pro ensaio.
— Tá bom então.
— Mas eu venho te ver de noite e quero que você me conte o que a Ana Lúcia queria com você.
— Tá bom. E vê se não fica se preocupando à toa.
— Vou tentar.
Ele me abraçou de novo e me beijou. Abri o portão pra ele e ele saiu. Fechei a porta, subi as escadas e chamei meus pais. Eles levantaram e eu e minha mãe fomos fazer o almoço. Almoçamos e eu ajudei ela a lavar a louça. Obviamente, tirei a aliança e coloquei em cima da prateleira.
— O que é isso? — perguntou minha mãe.
— Eu ganhei…
— Não acredito filha, que coisa linda.
— Você achou bonita?
— O que?
— A aliança…
— Ah, a aliança é linda também, mas eu tava falando do amor do Luan por você…
— Ah tá — comecei a rir — Poisé, tenho sorte em ter um namorado como ele.
— Eu acho que o caso de vocês não é sorte, é destino.
— Quem sabe…
Comecei a sorrir sozinha sem perceber, mas minha mãe percebeu.
— Ele te faz muito feliz, né filha?
— Demais mãe. Um minuto junto dele equivale a felicidade da minha vida toda.
— O amor de vocês é muito lindo e muito puro. Eu sinto isso. Sei lá, intuição de mãe. Dá pra ver que vocês se amam de verdade.
Eu sorri pra ela e ela retribuiu. Eu não tive palavras pra responder, pois tudo o que ela disse era fato. Terminamos a louça e eu fui pro quarto. Deixei a aliança dentro da caixinha em cima da penteadeira e fui pro banho. Quando terminei, fui me arrumar. Depois de colocar a roupa e pentear o cabelo, pensei se deveria ou não colocar a aliança pra ir encontrar a Ana Lúcia, afinal ela ia me fazer contar com quem eu estava namorando. Decidi então ir com a aliança, se ela me perguntasse alguma coisa, eu falaria a verdade. Olhei pro lugar onde havia deixado a aliança e encontrei a caixinha vazia. Me desesperei, desci as escadas correndo.
— Mãe! Você viu minha aliança por aí?
Antes que ela respondesse eu entrei na sala e vi ela mostrando pro meu pai. Suspirei aliviada.
— Calma filha, to com ela aqui.
— Mãe, você quase provocou um enfarte.
— Perdão filha… Toma, pega aqui e coloca ela.
Eu a coloquei e meu pai sorriu.
— Fica mais linda ainda na sua mão, filha.
— Ah… Obrigada pai.
Ele sorriu novamente e demonstrou um “de nada” com a cabeça. Eu subi as escadas novamente, peguei minha bolsa, me despedi dos meus pais e fui pra pracinha.
Capítulo trinta e três — Um beijinho de boa noite antes de dormir.
Eu cheguei em casa e olhei no relógio e já eram seis horas. As horas passaram muito rápido naquela tarde, mas mesmo assim, eu pensei no Luan o dia todo. Era incrível a falta que ele me fazia. Só achei um pouco estranho ele não ter me ligado. Fui pro meu quarto, tomei banho e fui assistir televisão. Meus pais não estavam em casa e iam demorar a chegar, pois ainda iam jantar na casa de um casal de amigos. Preparei um sanduíche e enquanto comia, ouvi o barulho do carro do Anderson deixando o Luan em casa. Tive vontade de ir correndo até o portão pra ver ele, mas me contive. Terminei de comer e voltei pra sala. Uma hora depois a campainha tocou. Abri uma fresta na cortina da sala e vi que era o Luan, meu coração quase saltou do peito. Abri o portão e fiquei esperando na porta da cozinha. Meu coração acelerava mais a cada passo que ele dava. Vi sua silhueta desenhada na escuridão. Percebi que ele estava segurando algo, mas não consegui identificar o que era. Aos poucos eu fui vendo o seu rosto, através da luz da lua. Ele vinha sorrindo, segurando um buquê de rosas brancas nas mãos. Tão belo, tão majestoso era o sorriso que se estampava no rosto dele. Aquele cabelo espetado que estava mais lindo do que no dia anterior, e o jeitinho de andar que só pertencia a ele. Tudo fazia meu coração disparar, minhas mãos suarem e minhas pernas tremerem. Então ele falou:
— Oi meu amor.
— Oi meu lindo — ele me abraçou forte, enquanto se atrapalhou um pouco com o buquê de flores.
— Como você tá? — ele perguntou.
— Tô ótima e você?
— Melhor agora.
Me soltei do abraço, mas continuei com as mãos nos ombros dele enquanto ele me segurava pela cintura. Dei um beijo nele e ele retribuiu.
— O que é isso?
— São flores pra namorada mais linda do mundo.
— Own, haha. São lindas amor, obrigada — ele me deu um beijo na testa.
— De nada meu anjo — ele disse enquanto roçava os lábios no meu cabelo.
— Tô ficando mal acostumada hein, todo dia você me trás flores…
— É que eu passo por um lugar cheio de rosas brancas todos os dias, aí faço questão de parar pra pegar uma pra você, mas hoje eu peguei um pouco mais…
— Quer dizer que foi você que fez o buquê?
— Sim — disse ele um pouco tímido.
— Own, que lindo!
Eu dei um selinho nele e o puxei pela mão. Após fechar a porta, peguei outro vaso, enchi de água e coloquei o buquê dentro.
— Vou colocar elas no meu quarto depois — eu disse, ele sorriu.
— Você já jantou amor? — eu perguntei.
— Na verdade não, mas não se preocupa, depois eu janto.
— Na-na-ni-na-não! Vou fazer um sanduíche pra você. Eu sei que você tem fome quando chega do ensaio.
Preparei o sanduíche pra ele enquanto ele foi colocar minhas flores no quarto. Depois nós fomos pra sala assistir televisão enquanto ele comia.
— Tá gostoso? — eu perguntei.
— Melhor não existe.
Ele terminou de comer e foi pra cozinha, eu vi que ele estava demorando e fui ver o que tinha acontecido.
— Luan? — eu disse quando cheguei na porta.
— To aqui amor…
Eu vi que ele estava com a camisa toda molhada. Comecei a rir.
— O que você tá aprontando?
— Eu vim tentar lavar a louça, mas não deu muito certo — ele disse me fazendo rir mais ainda.
— Ai Luan, não precisava lavar a louça.
— Precisava sim, poxa…
— Olha o seu estado! Parece que você pegou a camisa molhada no varal e vestiu.
— Ai, é difícil lavar louça, eu ainda não peguei prática…
— Ai, só você né amor? — eu disse rindo, ele fez biquinho.
— Own, vem cá no quarto da minha mãe que eu vou pegar uma camisa do meu pai pra você vestir.
— Precisa não.
— Precisa sim, senão você pega um resfriado ainda, e isso não pode acontecer.
Puxei ele pela mão e fui praticamente o arrastando até o quarto. Chegando lá, fui direto ao guarda-roupa pegar algo que servisse nele, enquanto ele ficou parado perto da penteadeira. Encontrei uma camisa que meu pai não usava mais e certamente não iria fazer falta. Quando me virei pra entregar ela pro Luan, o enxerguei sem camisa. Por um instante parecia que todas as veias do meu corpo entraram em curto circuito. Meu coração saltou do peito. Ele era ainda mais perfeito assim. Não era forte e tinha poucos músculos, mas por um momento, senti vontade de abraçar ele pra sentir somente o seu corpo, sem nenhuma peça de roupa atrapalhando.
— Pega essa, acho que serve em você — eu disse enquanto tentava conter os batimentos do meu coração, depois abaixei a cabeça.
— Ah, brigada amor — ele disse percebendo minha reação.
Eu permaneci virada, e tentei disfarçar indo até a penteadeira fingindo que ia pegar algo na gaveta.
— O que aconteceu? — ele perguntou.
— Nada, não aconteceu nada.
— Tá com vergonha de me ver assim?
— Não, não.
— Então o que foi? — ele disse enquanto virou meu rosto, me obrigando a olhar nos olhos dele.
— Senti uma sensação estranha quando te vi assim… Hã… Sem camisa.
— Sensação estranha?
— É, foi como se… Se meu corpo tivesse levado um choque.
— Não foi só isso. Eu posso ver nos seus olhos… Foi o que mais?
— Sei lá — eu disse enquanto virava o rosto pro espelho.
Depois ele me virou de novo e me abraçou pela cintura, ele ainda estava sem camisa. Eu hesitei por um momento, mas deixei minha mão tocar o peito dele.
— Me conta — ele insistiu.
— Eu senti uma necessidade imensa de te abraçar.
— Então…
Ele não esperou que eu tomasse iniciativa e me envolveu num abraço forte. Encostei minha cabeça no peito dele e fiquei mais calma. O corpo dele era quente e eu nunca tinha sentido isso nas outras vezes que tinha abraçado ele. Eu podia sentir os batimentos do coração dele. Eu me senti mais protegida ainda ali com ele. Me soltei dos braços dele e ele continuou com as mãos na minha cintura.
— Pronto — ele disse — Tá satisfeita? Haha.
— Seu bobo, foi melhor do que eu imaginava. Foi mais… Quente.
Ele riu. Eu afaguei o rosto dele com uma das mãos e ele fechou os olhos. Dei um beijo na bochecha dele. Ele me puxou pra mais perto e me beijou. Eu retribui. Foi o beijo mais intenso que havíamos tido. Parecia que tinha mais amor, mais paixão. Todo o meu corpo estremeceu e eu fiquei arrepiada quando ele pousou a mão no meu pescoço e foi subindo até o meu cabelo. Ele me segurou mais forte, me ergueu e foi indo em direção a cama. Eu forcei meu corpo pra baixo, ele percebeu e me soltou no chão.
— Luan, não — eu disse, um pouco incomodada.
— O que foi? Você não quer?
— Eu quero, mas… Não agora.
— Por quê?
— Não sei direito, ainda não me sinto preparada pra isso — ele olhou pra cima desviando os olhos de mim — E também acho que é um pouco cedo.
Ele bufou e olhou pra mim novamente.
— Não acho cedo. Acho que já esperei tempo demais pra isso.
— Eu te entendo, amor. É como se a gente já estivesse juntos desde a primeira vez que nos vimos, a quinze anos atrás.
— É, você me entende.
— Mas agora é diferente. Quem tem que me entender é você.
— Tudo bem, eu respeito o seu tempo — ele disse após abaixar a cabeça.
— Desculpa amor — eu me senti um pouco culpada, ele parecia um pouco magoado.
— Tudo bem, não precisa se desculpar — disse ele enquanto me abraçava novamente e afagava meu cabelo.
— Eu te amo, Luan.
— Eu também te amo, meu amor — dizendo isso, ele me deu um beijo na testa.
Eu abracei ele novamente, e depois disse:
— Veste logo a camisa antes que você pegue uma friagem — eu disse, mudando de assunto.
— Calma, calma. Tô vestindo, haha.
Ele colocou a camisa. Ela era branca com alguns desenhos em preto. Ficou enorme nele, porque meu pai vestia pelo menos quatro números a mais que ele.
— Ficou gigante — ele disse rindo.
— Ficou lindo — eu assegurei.
Ele sorriu. Nós voltamos pra sala e continuamos assistindo televisão e conversando.
— Que horas seus pais vão chegar? — ele perguntou.
— Não sei, mas acho que vão varar a madrugada. Você tem que ir né?
— Não amor, vou ficar aqui com você até eles chegarem.
— Mas não precisa amor, você deve estar cansado…
— Não me importo. Vou ficar aqui com você, não vou te deixar sozinha.
— Luan…
Ele colocou o dedo indicador sobre a minha boca, me fazendo parar de falar.
— Shiii, to decidido — eu comecei a rir e ele também.
— Mas e você tá cansada? — ele perguntou.
— Um pouquinho, que horas são?
— Quase onze, vem cá, vou fazer você dormir — ele disse depois que eu ressonei.
Ele se encostou no braço do sofá. Eu deitei sobre o peito dele e puxei o lençol até a cintura. Ele começou a cantar a música “Meu Destino”, eu fiquei ouvindo e logo adormeci. Acordei algum tempo depois, com minha mãe me chamando. O Luan estava dormindo também e eu ainda estava deitada sobre o peito dele.
— Filha, acorda — minha mãe sussurrou.
— Ah… Mãe?
— Sou eu, acorda, vai pro quarto, já tá tarde.
— Que horas são?
— Três da manhã.
— Faz muito tempo que vocês chegaram?
— Não muito. Eu e seu pai estamos subindo pra dormir.
— Tá bom, eu já vou indo também.
— Fala pro Luan dormir aqui, já tá tarde, eu vou arrumar o colchão pra ele.
— Tá. Boa noite.
— Boa noite, durma bem.
Ela me deu um beijo na testa e foi pro quarto. Eu fui chamar o Luan. Assim que ia dizer o nome dele, parei por um momento. Parecia que ele sorria enquanto dormia, como se fosse um anjo. Eu fiquei admirando ele por um tempo.
— Amor… Acorda, vamos pra cama — ele abriu um dos olhos e me enxergou.
— Que horas são?
— Três da manhã.
— Caramba, tenho que ir pra casa — ele disse, após dar um pulo do sofá.
— Não amor, dorme aqui.
— Mas eu não avisei nada pros meus pais…
— Mas eles sabem que você tava aqui, eles não tem motivos pra se preocupar. E eles já devem estar dormindo.
— Tem razão…
— Então vem, minha mãe arrumou o colchão pra você dormir.
— Seus pais já chegaram?
— Já.
— Caramba, que vergonha.
— Por quê?
— Eu e você, sozinhos em casa, de noite…
Então eu me lembrei do que havia acontecido mais cedo.
— Não amor, eles sabem que não aconteceu nada. Senão minha mãe já ia ter me falado alguma coisa.
— Melhor assim então.
Eu assenti com a cabeça. Nós subimos as escadas e fomos direto pro meu quarto. A cama e o colchão já estavam arrumados e minha mãe já tinha ido dormir. Ele se deitou no colchão, eu apaguei a luz e deitei na cama.
— Luan?
— Fala…
— To com um pouco de frio…
Realmente naquela madrugada estava fazendo muito frio e minhas cobertas não estavam me esquentando.
— Quer que eu vá aí? — ele disse rindo.
— Quero…
Ele se levantou, deu a volta na cama e se deitou do meu lado. Esticou o braço no meu travesseiro, me puxou pra perto dele e eu me aninhei no seu peito. Pousei minha mão sobre o peito dele enquanto ele afagava meu cabelo com a mão que estava esticada. Depois de alguns minutos ele disse:
— Melhorou?
— Muito — eu disse o fazendo rir.
— Agora me deu sono — eu disse enquanto ressonava.
—Mas agora que você não tá mais com frio, eu vou pro colchão.
— Não, fica aqui — eu disse ao segurar o braço dele quando ele saindo da cama.
— Não amor, seus pais vão achar isso estranho.
— Não vão não. Minha mãe não costuma vir no meu quarto durante a noite e nem de manhã.
— Mas…
Interrompi as palavras dele com um beijo. Ele retribuiu.
— Para de ser tão teimoso — nós dois rimos.
— Tudo bem, eu fico aqui então.
— Eba, haha.
Eu levantei meu rosto pra ver o dele. A luz da lua atravessava a janela da sacada e refletia no seu rosto. Ele estava olhando através da janela.
— Lembra do que aconteceu na última vez que você ficou olhando assim pela janela?
— Lembro. Foi o dia mais feliz da minha vida — ele olhou pra mim e sorriu, eu o beijei.
— Eu te amo.
— Eu também te amo — ele disse sorrindo, eu sorri de volta.
— Essa é nossa primeira noite juntos, como namorados oficiais — ele disse.
— Ainda virão muitas outras — eu assegurei.
— Se depender de mim, sim.
— De mim também — eu disse enquanto me aconchegava nos braços dele.
— Me faz dormir de novo?
— Claro meu amor.
Ele começou a cantar a música “Sinais”. Eu coloquei a mão sobre a boca dele e ele parou.
— O que foi? Não quer essa?
— Quero, mas… Calma aí, faltou uma coisa.
— O quê?
— Eu te dar um beijinho de boa noite antes de dormir.
— Own, que linda, haha.
Eu dei um selinho nele.
— Te amo, dorme bem — eu disse.
— Você também — disse ele enquanto me dava um beijo na testa.
Ele me abraçou mais forte e começou a cantar de novo. Eu ainda fiquei alguns minutos pensando no que tinha acontecido mais cedo. Eu queria muito poder ter me entregado por inteira a ele naquela noite, mas eu não me senti preparada. Tive medo de que fosse ruim, apesar de saber que ele faria o que fosse preciso pra ser perfeito, porque seria a minha primeira vez. Mas muitas chances ainda viriam, e em uma delas eu me sentiria mais segura. Pensei na Gabi, e na tarde que eu passei com ela. Foi ótimo poder reencontrar ela depois de meses. E pensei também no dia seguinte. Eu iria encontrar a menina à qual eu nunca tinha nem conversado direito e muito menos ido com a cara. Ela era uma pessoa muito insuportável. Ela gostava de humilhar e pisar nos outros, só porque o pai dela era um dos fazendeiros mais ricos da região. Eu sempre tentei manter distância dela e o Luan também. Ela só tinha duas amigas, a Rafaela e a Geovana, que na verdade, só queriam o dinheiro dela. Ela era apaixonada pelo Luan, era quase uma obsessão, e eu não sabia se ela ainda sentia algo por ele. Eu só sabia que se esse sentimento existisse, ele teria que ser cortado pela raiz. Parei de ocupar minha cabeça com esses pensamentos e me concentrei na voz do Luan. Aquela linda voz que fazia meu coração disparar, e que daqui a um tempo, faria disparar também o coração de milhares de outras meninas. Eu tinha consciência disso. Aos poucos fui fechando os olhos, não demorou muito pra que eu dormisse.
Acordei cedo no outro dia, já era sexta feira e no dia seguinte eu iria encontrar a Ana Lúcia na praça do nosso bairro. Eu estava um pouco curiosa pra saber o que ela queria comigo, mas tentei não pensar muito nisso. Meu pai me acompanhou na minha sessão e eu voltei pra casa por volta das dez da manhã. Meu pai só iria pra empresa de tarde, então ele almoçou comigo. Logo depois do almoço ele saiu e eu fiquei em casa sozinha. Liguei pra uma amiga minha que havia estudado comigo no ano passado, nós éramos muito amigas, mas não nos falávamos desde a formatura.
— Alô?
— Gabi? É a Jé…
— Amiga, quanto tempo!
— Poisé né… Como você tá?
— Eu to ótima e você?
— To bem também. Eu tava pensando de a gente se encontrar pra conversar um pouco.
— Ah, ia ser ótimo! Quando?
— Hoje você tá livre?
— To sim, onde a gente pode ir?
— Na sorveteria do lado da escola às três horas, pode ser?
— Pode ser então, até depois.
— Até.
Eu sentia uma necessidade muito grande de contar sobre o meu namoro com o Luan pra alguma amiga, e a Gabi era a pessoa certa pra isso. Eu tinha poucos amigos e a maioria deles eram amigos do Luan também, inclusive ela. Mas eu ultimamente não tive mais contato com nenhum deles, e eu sentia falta disso. Já eram duas horas da tarde, eu fui tomar banho e me arrumar. A sorveteria não era longe da minha casa, então eu fui quando faltavam dez minutos pras três. Cheguei lá e ela ainda não havia chegado. Quando já tinha passado dez minutos do horário marcado, ela chegou. Eu dei um abraço demorado nela, porque realmente fazia muito tempo que não nos víamos mais.
— Nossa, quanto tempo! Desculpa o atraso.
— Imagina, isso acontece — nós ficamos de frente uma pra outra enquanto segurava as mãos dela.
— Como você tá linda, seu cabelo tá incrível — eu disse.
— Você também tá muito linda. Parece um pouco mais rejuvenescida, mais estonteante — eu sabia exatamente qual era o motivo da minha repentina boa aparência.
— Ah, brigada — eu agradeci, nós escolhemos o sorvete e fomos sentar.
— Ai Jé, eu fiquei sabendo de umas coisas que aconteceram com você, mas eu não tive tempo de te ligar. Ultimamente minha vida tá uma correria só, amanhã mesmo eu to indo pra São Paulo, eu estava arrumando as malas, por isso me atrasei.
A Gabi era modelo, e tinha um contrato de três anos com uma agência, e nos últimos meses, ela havia recebido dezenas de convites pra trabalhos.
— Imagino… Aconteceu tanta coisa durante esses meses.
— É verdade que você tá em tratamento contra uma doença?
— É sim, já faz dois meses.
— Nossa, como eu sou uma amiga desnaturada, nem te liguei pra saber como você tava.
— Imagina, você deve estar com a agenda lotada.
— Pior que to mesmo. Mas que doença é essa?
— É uma doença que me faz ter hemorragias fortes com qualquer cortesinho.
— Nossa, que horror.
— Poisé.
— E como você descobriu essa doença?
— Era num dia muito quente e o Luan estava lá em casa. Ele estava sentado embaixo do sombreiro comendo um creme de abacate que eu tinha feito pra ele, porque ele ia chegar de um show e ia estar morrendo de fome. Eu tava com muita sede, aí decidi fazer um tereré pra gente. Fui tentar tirar o gelo da forminha com uma faca, aí forcei demais e quase atorei dois dedos.
Mostrei pra ela uma cicatriz enorme que ocupava quase a mão toda.
— Nossa! Mas e aí, o que aconteceu depois?
— Aí eu dei um grito e o Luan ouviu e foi me socorrer. Aí já tinha uma poça enorme de sangue no chão e eu comecei a ficar tonta por causa do cheiro e também porque tava perdendo sangue demais. Aí o Luan chamou o seu Amarildo e eles me levaram pro hospital. No outro dia ele me contou sobre a doença e o médico me disse que eu teria seis meses de tratamento. Depois de um mês e meio, o médico me disse que eu teria só três meses de tratamento, ou seja, mais um mês e meio. Só que essa semana o médico me disse que eu vou ter só mais três semanas se ocorrer tudo bem. Na verdade duas, porque essa já tá acabando.
— Que história hein? Se eu soubesse que era tão grave, eu tinha dado um jeito de vim te ver, desculpa amiga…
— Imagina, eu entendo você. Nossa, aconteceu tanta coisa… O Luan tá com uma banda só dele agora, ele fechou um contrato com a Som Livre.
— Jura? Meu, não acredito! Puts, não vai demorar nada pra ele começar a fazer sucesso então.
— É mesmo…
— Lembra ano passado, que a gente cantava e tocava violão na sala durante a aula de biologia? Até a professora cantava com a gente.
— Claro que lembro! Saudades daquele tempo…
— Muitas saudades… Mas sério, nunca imaginei que o Luan fosse ser descoberto assim, tão cedo. Eu sempre soube que ele tinha potencial, mas pensava que ainda ia demorar pra ele ser reconhecido.
— Eu também pensava isso, mas aconteceu tudo tão rápido, nossa! Sabe quando a sua vida tá bem tranqüila e, de repente, passa um vendaval de novidades? A minha tá assim.
— Poisé, to vendo, haha.
— Mas e você, como tá a vida de modelo?
— Tá corrida demais. Fiz uns trabalhos de passarela, fotos… Fui pra todo canto do país, amanhã vou desfilar pra uma marca de roupas.
— Nossa, que legal. Você também tem muito potencial, é linda, sabe desfilar, você tem muito jeito pra essas coisas.
— Eu também acho isso. Na verdade, eu acho que encontrei o que eu quero pra minha vida, entende?
— Entendo…
— Mas, mudando de assunto… Como o Luan tá? A última vez que eu vi ele, foi na formatura também.
— Ele tá bem… Agora ele deve estar lá no ensaio.
— Ensaio?
— É que daqui a algumas semanas ele vai fazer o primeiro show com a nova banda. Na verdade, vai ser o show que vai abrir a primeira turnê dele.
— Que legal!
— Poisé. Mas as novidades não param por aí…
— Ah é? O que mais você tem pra contar?
Eu abaixei a cabeça e sorri.
— Ih, seus olhos estão brilhando. Eu conheço essa cara, tem menino na área né? — ela deu uma risada estridente.
— É… Na verdade, tem sim…
— Me conta tudo, imediatamente!
— Haha, quando eu disser quem é… Você não vai acreditar.
— Vai dizer que é o Rodrigo que era afim de você no ano passado…?
— Não, não — ela olhou pro teto por um tempo, um pouco pensativa.
— Ah desisto, não sei quem pode ser.
— Ah, tá fácil vai… Vou dar uma dica: nós falamos dele hoje — ela olhou pra mim um pouco assustada e depois soltou uma gargalhada.
— Tá brincando né? Só pode.
— Não, é sério!
— É o Luan? Tá zoando né?
— Não to não, agente tá junto — eu disse a fazendo rir mais ainda.
— Não consigo acreditar. Vocês eram melhores amigos…
— Poisé, mas a gente percebeu que se ama de um jeito diferente, não só como amigos.
— Cara — ela colocou a mão na frente da boca como se não acreditasse — eu nunca ia adivinhar! Nunca imaginei vocês dois juntos.
— Poisé, a gente também não, haha.
Ela me perguntou como nós começamos a namorar e eu contei. Depois eu disse:
— Mas… Mudando de assunto. Sabe quem me mandou uma mensagem essa semana?
— Quem?
— A Ana Lúcia.
— Qual? Aquela do ano passado?
— Essa mesmo.
— O que ela queria com você? Vai querer virar sua amiga agora, não creio…
— Ah, nem sei né… Ela me disse que tava com saudades e que queria colocar o papo em dia.
— Se achando sua amiga íntima né…
— Poisé, eu fiquei meio assim. Aí ela me disse se eu podia encontrar ela.
— E você disse o quê?
— Eu respondi que a gente podia se encontrar amanhã de tarde, mas eu só aceitei porque fiquei curiosa pra saber o que ela quer.
— Entendi… Mas, você lembra que ela era afim do Luan né?
— Lembro, mas ele nunca quis nada com ela — garanti com firmeza nas palavras.
— É, mas será que ela ainda gosta dele?
— Não sei…
— Você contou pra ela sobre o namoro de vocês?
— Não, as únicas pessoas que sabem são você, os pais do Luan e os meus pais.
— Mais nenhuma amiga sua sabe?
— Não, você é a única que eu confio pra falar disso.
— Own, haha.
— Mas eu quero te pedir uma coisa.
— O quê?
— Não conta pra ninguém. Por enquanto eu e o Luan queremos guardar segredo dos nossos amigos.
— Ah, claro, claro. Não vou contar pra ninguém, pode ficar tranqüila.
— Brigada.
Ficamos conversando por mais um tempo, até que o telefone dela tocou e ela apenas disse:
— Ok, já to indo.
Ela desligou e eu perguntei:
— Já estão ligando atrás de você? Haha.
— Poisé, é da agência, eu vou ter que ir…
— Tudo bem, você tem compromissos.
— Mas eu adorei passar essa tarde com você.
— Eu também.
— Olha, eu não sei quando a gente vai se ver de novo, e eu espero que não demore muito. Eu vou rezar todo dia pra que você possa se curar dessa doença logo e que você e o Luan possam ser muito felizes juntos.
— Muito obrigada. E eu quero desejar pra você todo o sucesso do mundo, porque você ainda tem um mundo inteiro pra conquistar com a sua beleza, a sua simpatia, o seu carisma…
— Obrigada você também, e quando quiser, pode me ligar.
— Ah, ligo sim.
— E diz pro Luan que eu mandei um abraço e que eu disse que ele também ainda tem um mundo inteiro pra conquistar com a voz dele.
— Haha, pode deixar que eu digo.
— Então tchau — Nós duas nos despedimos e foi cada uma pra um lado.
Capítulo trinta e um — Tão linda quanto o seu sorriso.
Fui tomar banho. Me vesti e passei o perfume que o Luan mais gostava. Ele não era um dos melhores perfumes que existiam, mas o Luan adorava. Terminei de me arrumar e fui pra cozinha ajudar minha mãe a fazer o jantar.
— O Luan vai jantar com a gente filha?
— Nem perguntei mãe…
— Ah, mas convida ele então.
— Tá.
Enquanto fazíamos a janta, eu ouvi o barulho do carro do Anderson deixando o Luan em casa. Nós terminamos e, uns quarenta e cinco minutos depois, a campainha tocou. Eu fui ao encontro dele no portão. Ele estava mais lindo do que o normal. O cabelo dele já tinha crescido bastante e ele o arrumou de um jeito diferente, puxou os lados pra frente, fazendo pequenas pontas, e deixou os fios espetados em cima. Ele estava com uma camisa azul e uma calça jeans escura. Eu adorava quando ele vestia alguma coisa azul, pois essa cor destacava ainda mais a divindade dele. Ele estava usando o meu perfume favorito e trazia nas mãos uma rosa branca. Eu dei um beijo nele e ele retribuiu, depois eu o abracei e ele me deu um beijo no pescoço que me deixou arrepiada.
— Hum, que delícia de perfume — ele disse.
— Especialmente pra você, e você também tá todo perfumoso, haha.
— Especialmente pra você também, haha — ele disse, um pouco sem graça — E eu te trouxe isso.
Ele me entregou a rosa e eu senti o aroma agradável dela.
— Brigada amor, é linda.
— A flor preferida da mais linda flor do meu jardim — ele disse.
Eu corei e sorri com o canto da boca. Ele me deu outro beijo, enquanto me abraçava pela cintura.
— Amor, você tá tão lindo hoje — eu disse enquanto afagava o rosto dele com uma das mãos.
— Você que tá linda, não só hoje, mas sempre.
— Obrigada, haha — eu disse um pouco tímida — Mas seu cabelo tá diferente — eu disse enquanto puxava os fios pra cima.
— É eu mudei, o que você achou?
Antigamente, ele deixava o cabelo normal, apenas penteava.
— Ficou lindo, o que você fez?
— Passei pomada modeladora e spray.
— Ficou perfeito! Aliás, até se você raspasse no zero ia ficar lindo, haha.
— Credo amor — ele disse rindo.
— Haha, e essa camisa azul ficou linda em você. Você tá parecendo um anjo, o meu anjo.
— Ah, eu sabia que você gostava de azul…
— Haha, você tá impecável.
— Brigada amor, e você tá linda também, assim como sempre foi.
Dei outro beijo nele e nós fomos pra dentro. Minha mãe estava pondo a mesa e meu pai estava na sala falando com um amigo no telefone. Eu peguei um vasinho pequeno e coloquei a rosa dentro dele com um pouco de água enquanto o Luan dizia:
— Hã… Boa noite.
— Boa noite — disse minha mãe — Como você tá Luan?
— Eu to ótimo, se melhorar estragar. E a senhora, como tá?
— Eu to bem também.
Ele sorriu. Me virei de frente pra ele e perguntei:
— Amor, você vai jantar com a gente né?
— Vixe, já to ficando mal acostumado com a comida da sogra — nós três rimos — Mas eu fico sim amor — ele completou.
— Então tá.
Eu o chamei pra irmos sentar no jardim enquanto meu pai falava ao telefone e minha mãe terminava o jantar.
— Noite linda né?
— Tão linda quanto o seu sorriso — disse ele.
Eu abaixei a cabeça e sorri.
— E as estrelas estão tão brilhantes quanto os seus olhos — ele emendou.
Ele levantou o meu rosto, fazendo com que eu olhasse pra ele.
— Eu te amo tanto sabia? Eu te amo mais a cada segundo, é como se o relógio fosse um marcador do meu amor por você. Um dia longe de você dura uma eternidade. Eu odeio quando sou obrigado a ficar o dia todo sem te ver.
— Eu também, é horrível. E parece que quando a gente tá junto assim, abraçadinhos como estamos agora, as horas passam voando.
— É verdade.
— Eu falei tanto sobre você pro meu pai hoje. Eu falei tudo o que tava guardado dentro de mim, não sei nem de onde eu tirei palavras pra dizer tudo aquilo, acho que só mesmo da sua imagem que vinha no meu pensamento a cada vez que eu pronunciava seu nome. Meu pai tava com medo de que eu não fosse feliz com você.
— Acho que isso é normal dos pais né? Mas ele tem que entender que pra mim, nada mais importa a não ser a sua felicidade.
Eu sorri pra ele e ele sorriu de volta. Eu continuei falando:
— Ele me disse que queria que eu voltasse a ser a menininha que sentava no colo dele pra tomar tereré e comer bolacha de chocolate. Ele falou que tinha saudades desse tempo e que agora ele não poderia mais me proteger como antes, porque eu teria você pra isso.
— É verdade, mas então, por que ele disse que tinha medo de que eu te fizesse sofrer?
— Porque ele sempre achava que nós éramos amigos demais pra namorarmos. Aí, quando ele ficou sabendo, teve medo de que se não desse certo, nós saíssemos machucados dessa história. No fundo, ele só quer que eu continue sendo direcionada por ele, mas isso não pode mais acontecer, porque eu cresci, e agora tenho você…
— É isso mesmo amor. Disso você não precisa ter dúvidas. Você tem a mim, eu vou te proteger de tudo e de todo mundo que pode te fazer mal. Enquanto eu estiver do seu lado, nada de ruim vai acontecer.
— Eu confio em você pra isso.
— E seu pai confia em mim?
— Depois que eu contei tudo, ele disse que dá pra perceber que a gente se ama de verdade, e disse que confia em você pra me fazer feliz.
— Bom, pelo menos isso.
— Ele também disse que eu to mudada, que eu to mais madura.
— Acho que é por causa do nosso namoro né? Eu também me sinto diferente.
— Acredito que é bem por isso. Você me fez ter sentimentos novos, conhecer sensações novas.
— E você faz o mesmo comigo, porque a cada segundo que a gente passa junto, eu te amo mais, e cada vez mais intensamente.
— Eu também, nosso amor cresce mais a cada batida do meu coração.
— É engraçado isso né? Um amor tão avassalador quanto o nosso não existe, eu nunca senti nada parecido por ninguém.
— Eu também não, mas eu adoro sentir isso.
Eu estava com a cabeça encostada no peito dele e ele me abraçou mais forte.
— Estou sentindo as batidas do seu coração — eu disse.
— Tá batendo muito rápido?
— Parece que você tá à beira de um enfarte, haha.
— Preciso aprender a controlar isso, mas é difícil, porque quando eu to perto de você meu coração me desobedece e bate muito mais rápido do que o normal.
— Comigo também.
Coloquei a mão dele sobre o meu peito.
— Então nós dois temos que aprender a controlar isso, haha — ele brincou.
— É mesmo, haha.
Ficamos ali por mais um tempo. Depois, minha mãe nos chamou pra jantar. Meu pai já estava sentado à mesa quando eu e o Luan aparecemos na porta de mãos dadas. Ele apertou minha mão de leve.
— Hã… Boa… Noite… Seu Valmir — a voz dele era um pouco trêmula.
— Boa noite Luan… Meu genro — dizendo isso, ele soltou uma gargalhada, fazendo todos nós rirmos.
— Tudo bem com o senhor? — o Luan perguntou, um pouco menos tenso.
— Tudo sim e você?
— Eu vou bem, muito bem — ele olhou pra mim e sorriu.
— Venham vocês dois, sentem pra gente comer — disse a minha mãe.
Eu puxei o Luan pela mão. Meu pai estava sentado na ponta da mesa, eu estava sentada de um lado dele e minha mãe do outro, e o Luan estava ao meu outro lado. Meus pais se serviram e depois eu e o Luan fomos pegar a colher do arroz ao mesmo tempo, os dois pararam na metade do caminho.
— Pode pegar amor — eu disse, afastando a mão.
— Primeiro as damas, haha.
Todos riram e ele corou. Enquanto jantávamos, meu pai e o Luan conversavam sobre futebol, os dois eram Corintianos roxos. Depois do jantar, minha mãe pediu pra eu ajudá-la na louça suja enquanto meu pai e o Luan conversavam na sala e eu atendi ao pedido dela. Antes de sair, o Luan me deu um selinho e meu pai apenas sorriu. Quando os dois já estavam na sala, minha mãe disse:
— O Luan tá um pouco nervoso né?
— Tá nervoso demais da conta, tadinho.
— Eu percebi.
— Poisé, mas eu tava tentando acalmar ele, dizendo que seria uma conversa tranqüila, coisa de pai cujo a filha está com o seu primeiro namorado.
Minha mãe soltou uma gargalhada.
— É verdade — disse ela depois de rir.
Terminamos de lavar a louça e enquanto minha mãe arrumava umas coisas no quarto, eu fui me sentar no jardim. Depois de uns quinze minutos, o Luan se sentou ao meu lado e me abraçou pela cintura, me puxando pra junto dele. Eu o abracei também e recostei minha cabeça no peito dele.
— E aí, como foi lá?
— Foi tudo bem, ele só queria tirar a prova de que eu realmente ia te fazer feliz.
— E o que ele disse?
— Ah, ele me perguntou várias coisas: quais eram as minhas intenções com você, se eu gostava de verdade de você, se eu era capaz de te proteger de coisas ruins que podem vir a te atingir…
— E o que você disse pra ele?
— Eu só respondi com sinceridade, respondi com o coração e o cérebro em sintonia.
— Como assim?
— Eu só garanti que as minhas intenções com você são as melhores, que eu te amo mais do que a minha própria vida e que enquanto eu estiver com você nada de ruim vai te acontecer.
— Own que lindo isso amor, você me encanta mais a cada segundo que passa.
—E você me encanta mais a cada novo sorriso que se estampa no seu rosto.
Eu o beijei e ele retribuiu. Cada beijo era diferente um do outro, mais intenso, mais gostoso de sentir. Depois ele me abraçou forte e me deu um beijo na testa.
— Eu te amo e vou estar do seu lado e te proteger pra sempre.
—Você já tá fazendo isso agora enquanto me abraça. Eu te amo.
Ficamos ali conversando por mais um tempo. Até que o Luan disse:
— Amor, me perdoa?
— Perdoar de quê?
— De uma coisa que eu devia fazer, mas não vou poder…
— Você tá se desculpando de uma coisa que nem fez ainda?
— É…
— E o que é essa coisa?
— É que eu não vou poder ir com você amanhã no hospital, de novo…
— Ah amor, eu já imaginava que você não pudesse ir, tudo bem, não precisa se desculpar.
— Mas é que eu prometi que eu ia com você sempre, e eu to quebrando essa promessa.
— Não se preocupa amor, eu já disse pra você que agora você deve se concentrar na sua carreira, nos seus ensaios. Eu já to melhor, agora só tenho mais duas semanas de sessão, enquanto você ainda tem um mês de ensaio, e não são poucas as músicas, você sabe disso melhor que eu… Você não precisa se preocupar comigo, e se isso te deixar melhor, sim, eu te desculpo.
— Mas é claro que eu me preocupo com você, nunca vou deixar de estar com o pensamento em você. Mas acho que você tem razão né, às vezes parece que eu até te sufoco, de tanto que eu quero te proteger de tudo.
— Eu gosto de quando você quer me proteger, mas acho que nesse momento você deve se direcionar pras suas obrigações. Me promete que vai fazer isso?
— Tá bom, eu prometo. Só não prometo uma coisa…
— O quê?
— Que não vou ter você no pensamento o dia todo. Isso é impossível de acontecer, porque eu não mando no meu cérebro e muito menos no meu coração.
— Haha, pra mim também é impossível, mas tudo bem desde que você passe a se preocupar mais com os seus ensaios.
— Ok então, haha.
— Que horas são?
— Dez horas.
— Nossa, faz quanto tempo que a gente tá aqui?
— Parece que faz uns dois minutos né? Mas já faz quase duas horas — ele disse ao olhar no celular — É horrível essa sensação, queria que o tempo passasse mais devagar quando eu estivesse com você.
— Eu também.
— Mas amor, acho que eu vou indo pra casa, porque amanhã eu e você temos que acordar cedo, e eu quero te ver bem disposta pra sua sessão.
— E eu quero te ver bem disposto pro seu ensaio.
— Então estamos quites, haha.
Ele me deixou no jardim e foi na cozinha se despedir dos meus pais. Logo depois ele voltou e eu o acompanhei até o portão. Eu dei um abraço nele e ele retribuiu com um abraço forte, depois ele me deu um beijo na testa.
— Boa noite amor, durma bem — eu disse.
— Você também, e tenha bons sonhos.
— Pra eu ter bons sonhos eu tenho que sonhar com você, haha.
Ele sorriu e abaixou a cabeça um pouco tímido, depois ele me deu um beijo.
— Eu te amo muito tá? — ele disse.
— Eu também te amo demais, fica com Deus.
— Você também.
Fiquei esperando no portão até o momento que ele entrou em casa. Fui pra dentro, dei boa noite pros meus pais e subi pro meu quarto. Eu não estava cansada e meus pensamentos estavam a mil. O Luan sempre me deixava pensando e sonhando acordada. Eu estava tão feliz, porque agora tínhamos a bênção dos nossos pais, e podíamos ser felizes juntos, como tanto queríamos. O Luan me fazia a pessoa mais realizada do mundo. Eu tinha um sentimento e, ao mesmo tempo, uma certeza que jamais tive: eu tinha o amor do Luan só pra mim. Eu tirava essas conclusões de cada “eu te amo” que ele me dizia, de cada sorriso que ele dava quando via o meu, de cada beijo, de cada vez que o meu coração quase saltava da boca quando eu o via, de cada abraço que ele me dava. Eu tinha também uma vontade quase impossível de controlar de ficar o tempo todo com ele, porque eu me sentia a pessoa mais feliz do mundo quando o fazia. E quando eu já estava quase dormindo, uma frase surgiu e ficou pairando sobre a minha cabeça: O Luan é o homem da minha vida. Essa era a verdade.